terça-feira, 12 de abril de 2011

Um Zangief em Realengo?


Zangief australiano:
Nas últimas semanas, Casey Heynes, um jovem estudante australiano, virou sensação no site YouTube, após “se defender” de um colega de escola da prática de bullying. No vídeo, dois adolescentes, de aproximadamente 16 anos, estão próximos um do outro quando Ritchard Galeum (bem menor e mais magro que Casey) começa a ofendê-lo com gritos, gestos e tapas. Passados alguns segundos, Casey fica extremamente furioso e resolve dar cabo àquela situação quando agarra o colega e desfere um golpe muito forte conhecido como “pilão”, daí o apelido de Zangief australiano.

Massacre em Realengo:
Na última quinta-feira, dia 07 de abril de 2011, 12 crianças foram assassinadas pelo jovem Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, em uma escola no bairro de Realengo, Rio de Janeiro. O jovem cometeu suicídio após ter sido interceptado por um policial militar. Das vítimas, observa-se que eram, em sua grande maioria, meninas.

Estreitando os fatos:
Nos últimos dias fiquei pensando, por muito tempo, sobre esses dois acontecimentos no que se refere a suas motivações e suas repercussões. No primeiro ocorrido, não houve vítima fatal e tanto o “agressor” quanto o “agredido” tem, aproximadamente, a mesma idade. Aliás, da forma como acabo de escrever, você, leitor, mal consegue definir quem, de fato, é o “agressor” e o “agredido”. No segundo acontecimento, a maior parte dos meios de comunicação contabiliza 12 vítimas fatais, muito embora, se lido com atenção, o parágrafo anterior nos aponta para o número de 13 mortos. Além disso, é notória a diferença de idade entre os “jovens” assassinados e o assassino (coloco jovens entre aspas para frisar que não são simplesmente crianças, como vinculado, mas adolescentes na faixa dos 14 anos).
Os motivos que levaram o pequeno Casey Heynes a tomar tal atitude são claros quando se assiste ao vídeo, e não há quem não vibre com a explosão da reação do garoto, diante de tamanho abuso e maldade do jovem que o humilha. Um fato interessante dá-se logo na primeira postagem do vídeo do garoto australiano que originalmente fora postado sob o título de "Child finally snaps after being bullied" que pode ser traduzido como: “criança finalmente reage após sofrer bullying”. É notória a satisfação do público com o desfecho da história, e é completamente entendível a nuvem de justiça que paira sobre o senso comum.
Pois bem, pensemos um pouco mais sobre Wellington: Nasceu no Rio de janeiro no dia 9 de abril de 1987 e foi adotado por Dicéa Menezes de Oliveira após ser rejeitado por sua mãe biológica que, possuía problemas psíquicos e chegou a tentar o suicídio. Familiares e conhecidos o descreveram como um jovem calado, tímido, introspectivo, que não se metia em problemas, não desrespeitava regras e passava boa parte de seu tempo trancado em seu quarto mexendo no computador. Estudou na Escola Municipal Tasso da Silveira até a 8ª série, mesmo colégio que acabou sendo palco do episódio fatídico da última semana.
Um vídeo exibido pela Globo News e algumas reportagens do site G1, mostram ex-colegas de Wellington dizendo algumas palavras sobre o então garoto: “o pessoal zoava ele porque ele mancava” (sic), “com certeza ele se sentia excluído pela sociedade... com certeza, ele era excluído na escola”, "Eu me lembro muito, o Wellington era o ‘bundão’ da turma, era um cara totalmente tranquilo, um bobão. Implicavam bastante com ele, zoavam ele de tudo o que é nome" (sic) “A gente comentava ‘pô, cara, tu é maluco?’. Porque estava o maior calor e ele ia de jaqueta preta, óculos preto, grandão...”.
O fato é que tanto no primeiro caso, quanto no segundo, os “agressores” tiveram as mesmas motivações, as mesmas angústias, as mesmas atitudes, mas em proporções diferentes. O que realmente muda são as conseqüências, a forma como as notícias são passadas e o ponto de vista de quem as analisa.
Meus caros, minha intenção aqui não é, de forma alguma, fazer defesas de quem quer que seja. Não quero com este texto, influenciar ninguém a pensar que as atitudes de Casey ou Wellington foram corretas ou ao menos aceitáveis. Minha intenção é confrontar os motivos pelos quais o senso comum é pré-direcionado a analisar alguns fatos, extremamente próximos, de formas tão diferentes. Seriam os próprios pré-conceitos os responsáveis pela caracterização de suas opiniões? Será que a mídia é capaz de formar juízos de valor dentro do caráter da população sem que esta se atente para isso? Ou será, na verdade, que preferimos apontar nosso dedo em riste àqueles que, em nossos conceitos, não são dignos de misericórdia simplesmente pela nossa imensa capacidade de sermos santos?

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